O avião aterrou com atraso e ela ainda teve de esperar pela bagagem, aquela cinta que anda e anda e não traz nada de quem a gente conhece. Escreveu a dizer que estava a chegar. Ele respondeu com uma palavra só. Ela leu a palavra umas quantas vezes no táxi, sem motivo nenhum, e depois guardou o telemóvel no bolso do casaco para não o gastar.
Tinham estado uns dias sem se ver. Não é nada, dito assim. Mas há uma diferença entre saber que a pessoa existe do outro lado e ter a pessoa à distância de um braço, e essa diferença cresce sozinha quando ninguém está a olhar.
Subiu as escadas em vez de esperar pelo elevador. Não sabia bem porquê. Talvez porque parar naquele momento, dentro de uma caixa de metal a olhar para números, fosse mais do que conseguia.
Ele abriu a porta antes de ela bater. Devia estar à espera do lado de dentro, o que é uma coisa que ela nunca lhe perguntou e de que se lembrou naquele instante.
- Olá.
- Olá.
Não houve mais nada dito durante um bocado. Ela largou a mala ali mesmo, no corredor, encostada à parede, com a etiqueta do aeroporto ainda presa à asa, e a mala ficou lá a noite toda como uma coisa de outra vida.
Ele puxou-a pela gola do casaco, não com força, com pressa, que é diferente. O casaco ficou pelo caminho. As mãos dela estavam frias da rua e ele deu um salto quando lhe tocaram no pescoço, e riram-se os dois contra a boca um do outro, o que estragou o beijo e ao mesmo tempo o melhorou.
- Estás gelada.
- Aquece-me, então.
Foi o que ele fez, e não foi devagar.
Há uma coisa que ninguém explica sobre reencontros: o corpo tem memória mais rápida do que a cabeça. Ela não teve de pensar onde pôr as mãos. Elas foram, souberam, encontraram o sítio onde a camisa dele sai das calças como se tivessem feito aquilo na véspera. E a cabeça dela ainda ia atrás, algures no táxi, a tentar apanhá-las.
Tinham falado todas as noites enquanto ela esteve fora. Chamadas com má rede, aquelas em que a voz corta a meio da palavra e a pessoa repete e já não tem graça nenhuma. Ela contava o dia, ele contava o dele, e havia sempre um silêncio no fim que nenhum dos dois preenchia, porque preencher seria admitir que faltava alguma coisa.
Agora não faltava. Era isso que estava a acontecer no corredor, e nenhum dos dois teve de o dizer.
Ele encostou-a à parede do corredor, ao lado da mala esquecida, e parou. Foi a única pausa da noite e serviu para uma pergunta.
- Aqui?
- Não me interessa onde.
O corpo tem memória mais rápida do que a cabeça, e nessa noite a cabeça chegou muito atrasada.
Mudaram de sítio na mesma, porque o corredor tem um candeeiro que dá luz a mais e nenhum dos dois queria luz. Foram para o quarto sem se largarem, o que é sempre mais difícil do que parece, e bateram com o ombro no batente da porta. Ela disse um palavrão. Ele disse que tinha sido culpa dela. Nenhum dos dois quis saber.
A cama estava feita, o que a divertiu. Ele tinha feito a cama. Alguém que faz a cama a contar que ela chega tarde e cansada e que provavelmente vai só querer dormir, e que ainda assim a fez, por precaução ou por esperança.
Desfizeram-na em segundos.
Ela tirou a camisola por cima da cabeça e ficou com o cabelo todo desgrenhado, e ele ficou a olhar mais tempo do que era preciso. Ela reparou. Sustentou o olhar dele de volta, ainda com a camisola na mão, e havia ali qualquer coisa de descarado que não costuma haver quando estão juntos todos os dias. A ausência tinha-lhes devolvido a vergonha e a falta dela ao mesmo tempo.
Ele avançou. Ela deixou cair a camisola no chão, ao lado da cama, onde ficou até ao dia seguinte a fazer companhia à mala.
Numa das voltas, ela estendeu o braço e abriu a gaveta da mesa de cabeceira sem sequer olhar, porque sabia onde estava, e o frasco de gel estava exatamente onde tinha ficado antes de ela partir. Nem uma palavra sobre isso. Há coisas que um casal resolve com um gesto e que ficariam ridículas ditas em voz alta.
O resto foi rápido, e nenhum dos dois pediu desculpa por isso. Nem sempre é preciso construir. Às vezes já está tudo construído há dias, à distância, em mensagens curtas e chamadas com má rede, e quando finalmente há corpo só falta deixar acontecer.
A dada altura ele parou outra vez, com a testa encostada à dela, só a respirar, e ela percebeu que aquilo não era técnica nenhuma. Era ele a precisar de confirmar que ela estava mesmo ali. Ela segurou-lhe a cara com as duas mãos e não disse nada, porque também não tinha nada que se dissesse.
Quando acabou, ficaram os dois de lado, virados um para o outro, sem falar. Ela tinha a respiração ainda desalinhada e reparou que a dele estava igual. Havia uma altura, no início da relação, em que teria sentido necessidade de dizer alguma coisa espirituosa naquele momento. Agora não. Agora podia ficar calada e continuar a ser suficiente.
Depois ficou aquele silêncio de fim de noite em que se ouve o frigorífico. Ela estava de barriga para baixo, com metade do lençol, e ele desenhava-lhe qualquer coisa nas costas com a ponta do dedo, sem forma nenhuma reconhecível.
- Fizeste a cama.
- Fiz.
- Para nada.
- Valeu a pena na mesma, disse ele.
Ela adormeceu antes de responder. De manhã ainda tropeçou na mala, que continuava no corredor, com a etiqueta do aeroporto e tudo, à espera de alguém que se lembrasse dela. Contornou-a e foi fazer café.