A página que ela dobrou

Houve semanas de mensagens antes de aquela porta se abrir. Mensagens de manhã, mensagens a meio de reuniões, mensagens que ficavam sem resposta até à noite e que ele relia duas vezes antes de escrever de volta. Tinham-se encontrado em cafés, uma vez num jardim, outra à saída de um cinema onde nenhum dos dois prestou atenção ao filme. Ali, naquele andar, nunca.

Ela abriu descalça, com o cabelo ainda húmido. Via-se que tinha arrumado a casa a pensar nele e que queria muito que isso não se notasse.

- Trouxe vinho, disse ele.

E ouviu-se a dizer aquilo como quem entrega um documento num balcão. A garrafa estava quente da mão. Ela pegou-lhe pelo gargalo, olhou para o rótulo mais tempo do que era preciso e riu-se baixo.

- Eu já tinha vinho. Mas trouxeste o teu, e isso conta.

A sala era pequena e estava demasiado quente. Sentaram-se no sofá com aquele palmo de distância que ninguém decide e que toda a gente respeita na primeira vez. Falaram do trabalho dela, do irmão dele, de uma série que os dois tinham começado e abandonado no mesmo episódio. Entre as frases havia silêncios a mais, e cada um deles pesava.

Nas mensagens tinham sido ousados. Era fácil ser ousado a escrever, com o telemóvel na mão e a certeza de que se podia apagar tudo antes de enviar. Ali, com os joelhos quase a tocar-se, nenhum dos dois parecia lembrar-se de nada do que tinha escrito.

Ela levantou-se para ir buscar copos. Ele ficou a olhar para a estante, à procura de alguma coisa para dizer quando ela voltasse.

Foi assim que viu o livro. Estava atravessado por cima dos outros, capa dura, lombada por estrear, o tipo de prenda que uma amiga oferece num aniversário só para ver a cara de quem recebe. Puxou-o com dois dedos e ele abriu-se sozinho, sempre na mesma página, porque alguém lhe tinha dobrado o canto.

Era um livro de posições ilustradas, sessenta e nove ao todo, cada uma com o nome por baixo e uma explicação em letra pequena. A página dobrada não era das complicadas. Era das que obrigam duas pessoas a ficar de frente uma para a outra.

- Isso não é meu, disse ela da porta da cozinha, com um copo em cada mão.

- E a página dobrada, também não?

Ela ficou quieta o tempo suficiente para ele perceber que tinha ganho alguma coisa. Depois pousou os copos na mesa baixa, sentou-se mais perto do que estava antes e tirou-lhe o livro das mãos.

- Foi de uma amiga. Disse que era para eu perder a vergonha.

- E resultou?

- Estou a mostrar-te a página, não estou?


O jogo começou sem ninguém o propor. Ela virava, ele lia o nome em voz alta, e os nomes eram quase todos absurdos. Houve um que os obrigou a parar, porque ela se riu com o vinho na boca e teve de pousar o copo a tempo.

- Isto é anatomicamente impossível.

- Está desenhado.

- Está desenhado por alguém que nunca teve costas, disse ela.

Riram-se os dois, e o riso fez o que o vinho não tinha feito. O palmo entre eles desapareceu sem que nenhum o tivesse mexido de propósito. Ela tinha agora o livro em cima das pernas, ele lia por cima do ombro dela, e o ombro dela estava encostado ao peito dele.

Foi ela que inventou a regra.

- Cada um escolhe uma que nunca faria.

- Só isso?

- E depois uma que faria.

A primeira parte foi fácil e deu para continuar a rir. A segunda demorou. Ele passou as páginas devagar, sentiu-a a respirar mais curto ao lado dele e percebeu que ela estava a fazer a mesma conta, a pensar no que ia dizer e no que isso deixava saber sobre ela.

Quando ela apontou, não disse nada. Só pousou o dedo no papel e deixou-o ali.

Ele olhou para o desenho e depois para ela. Não era uma posição difícil nem original. Era simplesmente aquela em que ninguém se consegue esconder.

Não era uma posição difícil. Era aquela em que ninguém se consegue esconder.

- Esta, disse ela.

- Está bem.

- Não tens de concordar só porque fui eu que escolhi.

- Não estou a concordar com o desenho, respondeu ele.

Ele levou mais tempo do que ela a escolher. Não foi por vergonha, percebeu mais tarde, foi por querer escolher bem. Acabou por recuar umas páginas e parar numa em que as duas figuras estavam sentadas, quase de lado, mais perto uma da outra do que qualquer outra coisa.

- Essa nem é bem uma posição, disse ela.

- É a que eu faria primeiro.

Ela voltou a olhar para o desenho e não respondeu nada. Ficou com a mão pousada em cima da mão dele, no sítio onde os dedos ainda seguravam a folha.

O livro escorregou das pernas dela quando ela se virou. Nenhum dos dois o apanhou.


Beijaram-se ali, no sofá, com a luz toda acesa e a garrafa a meio. Ela beijava de olhos fechados e mãos abertas, como quem não quer prender nada, e ele demorou a perceber que também podia tocar-lhe.

- Posso?

- Por favor.

A camisola dela ficou nas costas do sofá. A dele ficou onde caiu. Houve um momento em que ela parou, com a testa encostada à dele, só a respirar, e ele esperou sem perguntar o que era, porque percebeu que não era medo nem dúvida. Era o corpo a ir buscar coragem.

Depois ela levantou-se, pegou-lhe na mão e apagou a luz da sala a caminho do quarto.


De madrugada, ele acordou primeiro. O candeeiro da mesa de cabeceira tinha ficado aceso a noite toda e fazia um círculo amarelo no tecto. O livro estava ali, aberto ao contrário, como ela o tinha pousado sem olhar quando entraram no quarto.

Ele endireitou-o e procurou a página. Não era a que estava dobrada. Era outra, umas folhas à frente, e ele ficou muito quieto a olhar para ela.

- Estás a fazer batota, disse ela, sem abrir os olhos.

- Estou a preparar o próximo fim de semana.

Ela riu-se contra a almofada, puxou-lhe o braço para cima dela e adormeceu outra vez. Ele ficou acordado mais um bocado, com o livro fechado em cima do peito e o canto novo dobrado por dentro.

Retrato editorial de Confidente
Confidente

Voz literária da Loveshop para storytelling adulto. Anónima por design, porque a história é o protagonista, não o autor. Cada conto é construído pela equipa editorial Loveshop com vocação literária, sex-positive, em português europeu.

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