Foi ele que falou primeiro, e isso já era metade da surpresa. Estavam os dois à mesa da cozinha, com a loiça por lavar e nenhuma vontade de a lavar, a noite já assente do lado de fora da janela. Ele mexia no copo sem beber. Ela percebeu que vinha aí uma frase muito antes de a frase aparecer.
- Queria experimentar não ver, disse ele.
- Não ver nada?
- Nada. E não saber de onde vem o toque a seguir.
Ela pousou o copo dela. Havia anos de cozinha partilhada entre os dois, de fins de semana previsíveis e de sexo bom e conhecido, e mesmo assim ele ainda conseguia mudar a temperatura de uma noite com uma frase dita de lado, sem olhar para ninguém.
- E quem manda? perguntou ela.
- Tu.
- Tenho de ouvir isso outra vez.
- Tu, repetiu ele, e desta vez olhou para ela.
Ela demorou a responder, de propósito. Deixou-o ali a cozer em lume brando, porque aquilo já tinha começado e ele ainda não tinha dado por isso. Depois puxou a cadeira para mais perto, encostou o joelho ao dele por baixo da mesa e fez a pergunta que faltava, com a voz mais baixa do que o resto da conversa.
- Se quiseres que eu pare, dizes o quê?
- Digo pára.
- Pára a sério ou pára de brincadeira? Não vou saber a diferença com a cara tapada.
- Laranja, disse ele, depois de pensar. Digo laranja.
- Laranja, repetiu ela, e guardou a palavra como quem guarda uma chave no bolso.
No quarto, ela acendeu o candeeiro do lado dela e deixou o outro apagado, para a luz cair só de um lado. Ele sentou-se na beira da cama de costas direitas, com as mãos em cima dos joelhos, à espera de instruções. Ela reparou naquilo e gostou mais do que estava à espera.
A venda era de cetim preto, tinha entrado em casa há muito e fora usada poucas vezes, sempre nela. Ela passou-a pela palma da mão antes de a levantar, e o tecido fez aquele som quase nenhum que o cetim faz.
- Levanta o queixo.
Ele levantou. Ela ajustou-lhe a venda sobre os olhos, prendeu o nó atrás com cuidado, enfiou dois dedos por baixo do tecido para ver se não apertava demais. Depois ficou calada. Foi a primeira coisa que ele estranhou: o silêncio a durar mais do que era natural.
- Estás aí?
- Estou. A regra é esta: antes de eu te tocar, dizes onde achas que vou tocar.
- E se acertar?
- Se acertares, eu paro um bocado.
- Então é melhor não acertar.
- É.
A primeira tentativa dele foi o ombro. Ela tocou-lhe no interior do pulso, só com a ponta dos dedos, e ouviu-o encher os pulmões pela boca. A segunda foi o pescoço. Ela tocou-lhe no joelho. À terceira ele já demorava a responder, porque ir percebendo que não sabia era a pior parte e era também a melhor.
Sem ver, a casa mudou de tamanho. O frigorífico ligou-se lá ao fundo e pareceu-lhe estar dentro do quarto. O soalho rangeu num sítio que ele julgava que não rangia. Percebeu depressa que nunca tinha prestado atenção nenhuma aos sons de uma casa onde vivia há anos.
Foi então que ela foi buscar o que estava pousado na mesa de cabeceira desde a véspera. A chibata com penas tinha dois lados, e era esse o truque todo: penas escuras numa ponta, uma pá de pele cosida à mão na outra. Ela não explicou nada. Só deixou as penas descerem-lhe a meio do peito, tão leves que ele não teve a certeza se aquilo tinha acontecido ou se era a cabeça dele a inventar.
- Isso foi... não sei o que foi isso.
- Não vale desistir de adivinhar.
- Peito. Vais outra vez ao peito.
- Estás a gozar comigo.
- Um bocadinho, admitiu ela. Reclama.
- Não reclamo nada.
Ela deixou-o falar sozinho e reparou no que estava a acontecer. Aquela parte era nova. Ele nunca dizia grande coisa durante, nunca punha em palavras o que queria, e ali, sem cara para esconder atrás, começou a dizer tudo. Frases curtas, meio a rir, a pedir e a desistir de pedir na mesma respiração.
Ela foi ao tornozelo. Depois à parte de dentro do braço, onde a pele é fina e não tem defesa nenhuma. Depois desapareceu, e o pior de tudo era o intervalo, o bocado em que não acontecia nada e o corpo dele continuava à espera na mesma, todo acordado em cima da cama.
O que o desmontava não era o toque. Era o tempo todo antes do toque.
Quando ela virou finalmente o objeto e encostou a pele lisa da pá ao peito dele, sem força nenhuma, ele percebeu a diferença toda. As penas eram um rumor. Aquilo era um peso. Morno, plano, parado no sítio. Ele deixou sair um som que não chegou a ser palavra.
- Continua a adivinhar.
- Não consigo.
- Ainda bem.
Ela empurrou-lhe o ombro para trás até ele ficar deitado, subiu para a cama ao lado dele e deixou de avisar. As penas voltaram pelo interior das coxas, sem pressa e sem caminho, e ele já não estava a tentar acertar em coisa nenhuma. Tinha as mãos fechadas no lençol. De cada vez que ela parava, ele ficava quieto, sem saber se queria que ela continuasse ou que demorasse ainda mais.
- Posso? perguntou ela, muito perto do ouvido dele.
- Por favor.
Ela não lhe tirou a venda. Percebeu que ele ainda a queria e tinha razão. A última coisa que ele ouviu com clareza foi a cama a mudar de peso debaixo dela, e depois o quarto encolheu até caber só naquilo: duas respirações desencontradas e a luz de um lado só.
Muito mais tarde, com o cetim já enrolado em cima da mesa de cabeceira, ele tinha o braço dela atravessado no peito e nenhuma vontade de se mexer. Fora do quarto a casa estava na mesma, com a loiça à espera, e nenhum dos dois se importava.
- Não acertaste uma, disse ela.
- Não acertei nenhuma.
- Era esse o objetivo.
Ele riu-se baixo, com a cara metida no cabelo dela. Ela apanhou-lhe a mão, pousou-lha em cima do cabo forrado a pele que tinha ficado perdido entre os lençóis, e fechou-lhe os dedos à volta dele.
- Para a próxima, és tu a segurar isto.
Ele não respondeu nada. Ficou com a mão fechada ali, a calcular quanto tempo ia ter de esperar até chegar a vez dele.