Lá fora chovia daquela maneira que não pede pressa a ninguém. Ela ouviu-a bater no vidro enquanto tirava os sapatos à porta, e percebeu, antes sequer de o dizer, que nenhum dos dois ia querer sair dali tão cedo. Conheciam-se ainda pouco, o suficiente para haver curiosidade e não ainda hábito, e havia nisso uma vertigem boa.
Ele acendeu o candeeiro do canto, o mais baixo, e a sala ficou cor de mel. Ela pousou a mala e tirou de dentro um frasco pequeno, branco, que ele não conhecia. Segurou-o um instante na palma, como quem decide se o mostra.
- Trouxe uma coisa, disse ela.
- Mostra.
- É para as tuas costas. Se deixares.
Ele olhou-a de lado, um sorriso a formar-se devagar, e começou a desabotoar a camisa sem lhe tirar os olhos. Ela gostou disso, da falta de perguntas, da forma como ele se entregava a uma ideia que ainda mal existia.
Estenderam uma toalha sobre a cama e ele deitou-se de barriga para baixo, a cara virada para o lado, a respiração já mais lenta do que a dela. Ela ajoelhou-se ao lado dele e abriu o frasco. Era um gel de massagem da linha Slow Sex, e o nome fê-la sorrir, porque era exatamente o que ela queria: nada de pressa nenhuma.
Aqueceu um pouco entre as mãos antes de o pousar na pele dele. Cheirava a coco e a qualquer coisa mais funda, mais quente. Ele suspirou quando as palmas dela desceram pela coluna, e o suspiro dela respondeu-lhe sozinho, sem que quisesse.
- Assim, murmurou ele.
- Assim como?
- Assim devagar.
Ela obedeceu, ou talvez o contrário, já não sabia bem quem conduzia. Aprendeu-lhe as costas como se lê uma frase pela primeira vez: os ombros duros do fim do dia, a curva no fundo das costas onde ele arrepiou, o sítio exato onde a pressão o fazia soltar o ar todo de uma vez. Cada nó que desfazia parecia abrir também outra coisa, mais para dentro.
Havia uma honestidade nova em tocar alguém sem destino, só pelo caminho.
A chuva continuava. Ela deixou as mãos descerem mais, até à cintura, e sentiu-o mudar, a respiração a apanhá-la de surpresa. Quando ele se virou, foi sem urgência, só para a olhar de frente, e a luz de mel escorreu-lhe pela cara.
- Posso?, perguntou ela, a mão aberta sobre o peito dele.
- Por favor.
O que veio a seguir foi devagar como tudo o resto. Ela inclinou-se e ele foi ao encontro dela a meio, e a boca de um encontrou a do outro sem pressa de chegar a lado nenhum. As mãos ainda escorregadias, os corpos a aprenderem o peso um do outro, o coco e o calor entre eles.
Houve um momento em que ela parou, só para o ouvir respirar, para o guardar assim. Ele abriu os olhos, percebeu, e puxou-a mais para si sem dizer nada. Lá fora a chuva subiu de tom, como se soubesse, e a sala de mel fechou-se sobre eles.
Depois disso, o resto foi deles, e não nosso.
Ficaram muito tempo sem falar, a toalha esquecida, a chuva a abrandar por fim. Ela tinha a cabeça no peito dele e ouvia-o por dentro, aquele tambor lento a voltar ao normal. Ele passou-lhe os dedos pelo cabelo, uma vez, outra, como quem ainda não quer que a noite mude de assunto.
- Da próxima trago eu o frasco, disse ele.
- Da próxima, repetiu ela, e gostou de como soava.
A chuva parou algures na madrugada. Nenhum dos dois deu por isso.