Chegou a casa e a casa estava vazia, o que naquele dia era exatamente o que ela queria. Pousou as chaves, tirou os sapatos no corredor em vez de os levar até ao quarto, e ficou parada um bocado a ouvir o silêncio de um apartamento onde não há mais ninguém a fazer barulho nenhum.
Há uma diferença entre estar sozinha e estar só. A primeira é uma condição, a segunda é uma escolha, e ela tinha escolhido. Tinha dito que não a um jantar e não se sentia mal com isso.
O dia tinha sido daqueles que se atravessam em piloto automático. Reuniões a seguir a reuniões, uma conversa no corredor com alguém que queria uma coisa que não era importante, e a sensação persistente de estar a ser útil a toda a gente menos a si própria. Quando o convite para o jantar apareceu no telemóvel, respondeu que não antes de ter tempo de arranjar uma desculpa. Foi a primeira decisão honesta do dia.
Não era antipatia. Era saber, com uma clareza rara, que o que lhe apetecia naquela noite não cabia numa mesa com mais pessoas.
Tomou banho sem pressa e demorou-se debaixo da água mais tempo do que costuma, porque não havia ninguém à espera da casa de banho nem do jantar nem dela. Saiu com a pele quente e a toalha mal enrolada e não se vestiu. Aquilo também era uma escolha.
O quarto estava com a luz da rua a entrar pela janela, aquela luz laranja de candeeiro público que dá a tudo um ar de fotografia antiga. Não acendeu nada. Deitou-se por cima do edredão e ficou a olhar para o teto.
A primeira coisa que fez não foi nada. Ficou ali. E é aí que a maior parte das pessoas falha, porque trata isto como uma tarefa a despachar, quando a diferença entre despachar e prestar atenção é a diferença toda.
Passou a mão pela barriga, sem intenção nenhuma, só a sentir a própria pele ainda morna do banho. Deu-lhe uma coisa engraçada: reparou que não se tocava assim havia muito tempo. Tocava-se a despachar. Isto era outra coisa.
A diferença entre despachar e prestar atenção é a diferença toda.
Deixou as mãos andarem. Pelo esterno, pelas costelas, pela lateral da cintura onde a pele é mais fina e reage mais depressa. Fez uma coisa que nunca faz quando está acompanhada, que foi parar quando começou a ficar bom e esperar. Esperar sem motivo, só para ver o que acontece.
O que acontece é que o corpo vai à frente e pede. É uma sensação de posse estranha, dar por si a querer alguma coisa de si própria.
Havia uma coisa em que reparou e que não esperava: a cabeça estava calada. Normalmente, quando faz isto, a cabeça anda a fazer inventário do dia seguinte ou a repassar uma conversa que correu mal. Nessa noite não. Nessa noite estava toda no corpo, e ocorreu-lhe que talvez fosse esse o verdadeiro luxo da noite, e não o resto.
Levantou os joelhos e afastou-os, sem público, sem ângulo bom, sem a preocupação de estar bonita numa posição qualquer. Ninguém a via. Passou-lhe pela cabeça quanta energia gasta, quando está acompanhada, a gerir a imagem em vez de sentir. E depois deixou de pensar nisso também.
Estendeu o braço para a gaveta. O estimulador de ar estava carregado, porque ela é organizada nas coisas que lhe interessam, e a boquilha ainda tinha o cheiro do sabonete neutro com que o tinha lavado da última vez.
Começou no nível mais baixo, que é o conselho que toda a gente dá e que quase ninguém segue. Não encostou logo. Aproximou, afastou, deixou o ar trabalhar a alguns milímetros de distância antes de assentar. Quando finalmente assentou, o som que lhe saiu foi mais alto do que teria sido se houvesse alguém em casa, e essa liberdade também fazia parte.
Subiu de nível quando o corpo pediu e não antes. Voltou a descer uma vez, de propósito, para adiar. Não havia ninguém a quem explicar aquilo, nem ninguém a quem pedir mais devagar, nem ninguém para quem valesse a pena disfarçar a cara. Era tudo dela e a decisão de cada segundo também.
A meio, largou o aparelho e voltou às mãos, só para sentir a diferença. É uma coisa que vale a pena fazer e que quase ninguém faz: alternar. A mão sabe coisas que a máquina não sabe, e a máquina consegue uma constância que a mão não aguenta. Uma não substitui a outra, e ela deu por si a usar as duas como quem tem duas ferramentas em cima da mesa e escolhe conforme o momento.
Voltou ao aparelho. A boquilha assentou no sítio certo à primeira, porque já sabia o caminho.
Foi uma coisa lenta e depois deixou de ser lenta.
Depois ficou de lado, encolhida, com uma perna por cima do edredão e a respiração a assentar devagar. A luz laranja da rua continuava a entrar. Em algum sítio do prédio alguém puxou um autoclismo, e a normalidade daquele som fê-la sorrir.
Não havia conversa a ter, nem lençol a partilhar, nem a pergunta educada sobre se tinha sido bom. Tinha sido. Ela sabia, e era a única pessoa que precisava de saber.
Ficou a pensar numa coisa que raramente lhe ocorre: que aquilo não era um substituto de nada. Não estava a compensar ausência nenhuma nem a matar tempo até aparecer alguém. Era uma coisa completa em si mesma, com princípio e fim, e que não devia satisfações a ninguém.
Levantou-se para ir buscar água. Lavou a boquilha com água morna e sabonete neutro e deixou-a a secar em cima de um pano, porque no dia seguinte iria querer que estivesse pronta outra vez, e essa antecipação também é uma forma de prazer.
Voltou para a cama, agora por baixo do edredão, e adormeceu antes de se lembrar de fechar a persiana. De manhã a luz acordou-a cedo e ela não se importou nada.