O calor tinha tomado conta do apartamento desde o meio da tarde. Ela estava descalça na cozinha, com o cabelo preso à pressa, a decidir se valia a pena ligar o forno com aquela temperatura. Ouviu a chave na porta antes de o ver.
Ele entrou, pousou o saco no balcão e ficou parado de uma forma que ela conhecia bem, com um ar entre o divertido e o desconfiado de si próprio.
- Comprei uma coisa.
- Comida?
- Não.
Tirou do bolso uma caixa pequena e pousou-a na bancada, entre a tábua e as cebolas. Ficou ali, um objecto de plástico e cartão a fazer companhia ao jantar por fazer.
Ela limpou as mãos ao pano antes de pegar. Leu a caixa toda, incluindo as letras pequenas, o que era tipicamente dela, e depois olhou para ele por cima do cartão.
- Isto é para ti ou para mim?
- Acho que é a piada. É para os dois.
Abriram a caixa ali mesmo, encostados à bancada, com a seriedade de quem monta um móvel. O anel vibratório era mais pequeno do que ela esperava e mais macio ao toque. Ele carregou no botão e o objecto ganhou vida na palma da mão dela, um zumbido baixo que a fez rir e afastar a mão de repente.
- Ai. Não estava à espera.
- Ninguém está da primeira vez.
Ela voltou a pegar-lhe, desta vez a sério, e deixou a vibração passar-lhe pelos dedos. Não disse nada durante um bocado. Depois desligou-o, pousou-o na bancada e olhou para o lume apagado.
- O jantar pode esperar meia hora.
No quarto, as persianas estavam meio descidas e o ar tinha aquela luz de fim de tarde de Agosto, dourada e preguiçosa. Ela fechou a porta com o pé.
A primeira tentativa correu mal e correu bem ao mesmo tempo. Ele demorou a perceber a orientação certa, ela deu duas indicações contraditórias, o anel escorregou e os dois desataram a rir com a cara enterrada na almofada. Foi esse riso, e não a novidade, que tirou o resto da vergonha do caminho.
Foi o riso, e não a novidade, que tirou a vergonha do caminho.
À segunda ficou onde devia. Ele voltou a carregar no botão e ela sentiu-o antes de perceber que o tinha sentido, uma pressão subtil que não vinha das mãos dele nem da boca, mas do sítio exacto onde os corpos se encontravam.
- Assim está bom?
- Não fales. Fica quieto um bocado.
Ele obedeceu, o que era raro, e ficaram os dois quase imóveis a deixar a coisa fazer o trabalho. Era estranho e era bom, e nenhum dos dois sabia bem para onde olhar. Ela acabou por lhe agarrar a nuca e puxá-lo para baixo, e a partir daí deixaram de precisar de decidir seja o que for.
O que a apanhou desprevenida não foi a intensidade. Foi a persistência. Não havia braço a cansar-se, não havia pausa para mudar de posição, não havia aquele momento em que um dos dois perde o ritmo. A vibração estava simplesmente ali, sem opinião nenhuma, e o corpo dela foi subindo por uma escada que não tinha degraus para descansar.
Ela disse alguma coisa contra o ombro dele que não era uma palavra inteira. Ele percebeu na mesma.
Depois ficaram de barriga para cima, os dois a olhar para o tecto, com o ventilador a trabalhar ao canto. O anel tinha ido parar ao chão em algum momento e continuava a zumbir baixinho contra a madeira, esquecido.
- Isso ainda está ligado.
- Eu sei. Não me apetece levantar.
Ficaram a ouvi-lo mais um bocado, como quem ouve chuva. Lá fora ainda era dia, o jantar continuava por fazer e nenhum dos dois tinha pressa nenhuma de resolver isso.
- Amanhã experimentamos outra vez?
- Amanhã não. Daqui a bocado.