Ninguém avisa que vai ser desajeitado

Ninguém avisa. Os filmes cortam sempre para o momento em que as duas pessoas já estão a saber exatamente o que fazer, e depois a gente chega lá e descobre que a primeira noite com alguém novo é sobretudo um exercício de logística.

A questão do casaco, por exemplo. Ela chegou com casaco e ninguém sabia se aquilo se pendurava, se se largava numa cadeira, se era demasiado cedo para haver um sítio para o casaco dela naquela casa. Ficou nas costas de uma cadeira da cozinha, que era o compromisso possível.

- Queres beber alguma coisa?

- Já perguntaste isso.

- Perguntei?

- Perguntaste outra vez. Estás nervoso.

- Estou, disse ele. E tu?

- Também. Mas eu escondo melhor.

Riram-se, e foi ali que a noite começou a resolver-se. Não no beijo, que veio depois. Na admissão.

Ela tinha passado a tarde a decidir o que vestir e depois a fingir para si própria que não tinha passado a tarde a decidir o que vestir. Ele tinha mudado os lençóis e aberto a janela do quarto durante uma hora, e ia negar as duas coisas se lhe perguntassem. Chegaram os dois àquela cozinha com uma preparação que ambos fingiam não ter feito.

É uma coreografia estranha, esta. Toda a gente ensaia e ninguém admite ter ensaiado, e depois o que corre bem raramente é a parte ensaiada.


O beijo aconteceu na cozinha, encostados à bancada, e foi bom até ao momento em que ele recuou meio passo e bateu com o cotovelo no armário aberto. O barulho foi ridículo. Ela levou a mão à boca e ele ficou a esfregar o cotovelo com uma cara de quem estava a decidir se aquilo tinha estragado tudo.

- Estás bem?

- Estou a fazer isto muito bem, não estou?

- Estás a fazer isto de forma memorável.

Ela puxou-o outra vez pela camisa. Foi a decisão mais generosa da noite, e ele percebeu-o.

Ir da cozinha para o quarto envolveu passar por um corredor com um tapete que faz dobra. Ela tropeçou. Ele apanhou-a por reflexo e os dois ficaram parados um segundo naquela posição absurda de filme antigo, a olhar um para o outro, e desataram outra vez a rir. Havia mais riso do que ela estava à espera. Não sabia que o riso podia ser assim, quer dizer, que podia estar do mesmo lado do desejo em vez de o interromper.

Não sabia que o riso podia estar do mesmo lado do desejo em vez de o interromper.

No quarto acenderam a luz e desligaram-na quase logo a seguir, e depois voltaram a acendê-la porque assim não se via nada, e acabaram no candeeiro da mesa de cabeceira, que foi a terceira tentativa e a única boa.

Despir alguém pela primeira vez é uma coisa que exige perguntas. Onde é que este fecho abre. Isto sai por cima ou desaperta. Ela teve de o ajudar com o soutien e ele agradeceu com uma sinceridade que a desarmou completamente.

- Obrigado.

- De nada. Não é uma prova.

- Pareceu-me uma prova.

- Todas as primeiras vezes parecem. Não são.

Ele parou e olhou para ela de uma maneira que a fez ficar quieta. Depois disse a coisa mais simples da noite.

- Diz-me se houver alguma coisa que não queiras.

- Digo. Diz tu também.

E disseram, as vezes que foi preciso, ao longo da noite, sem que isso partisse nada. É outra coisa que ninguém avisa: falar não estraga. Falar é que permite continuar.


Houve o momento do preservativo, que ele foi buscar sem fazer disso um acontecimento, e que ela agradeceu em silêncio por ele não ter feito disso um acontecimento. Houve o momento do gel, que ela pediu e ele não estranhou, porque corpos novos um para o outro precisam de tempo e de ajuda, e isso não é falha de ninguém.

E houve o resto, que foi desajeitado no início e deixou de ser a meio, quando ambos pararam de tentar acertar e começaram simplesmente a prestar atenção. Ela reparou que ele reagia quando lhe tocavam atrás da orelha. Ele reparou que ela fechava os olhos com força antes de fazer barulho. São coisas que não se sabem à partida e que se descobrem todas na mesma noite, e é essa a razão pela qual as primeiras vezes valem a pena apesar de tudo.

Houve um intervalo a meio em que ficaram os dois deitados de lado, a recuperar o fôlego, e ela contou-lhe uma coisa parva de que se tinha lembrado. Ele riu-se com o corpo todo, o que a fez rir também, e reparou que estavam a ter uma conversa normal completamente nus, o que uma hora antes lhe teria parecido impossível.

A meio, o candeeiro da mesa de cabeceira levou com um cotovelo e ficou virado para a parede. Ninguém o endireitou. A luz na parede era melhor do que a luz na cara, portanto foi uma melhoria acidental.


Depois ficaram na cama a olhar para o teto de uma casa que só um deles conhecia bem. Ela tinha o lençol até ao queixo, ele não tinha nada, e havia entre os dois um espaço de palmo que nenhum se decidia a fechar.

- Isto foi muito desastrado.

- Foi.

- Não estás a discordar.

- Estou a concordar com muito gosto, disse ele.

Ela virou-se de lado e fechou o palmo que faltava. Adormeceram assim, mal encaixados, com o candeeiro virado para a parede a fazer uma mancha de luz que ficou acesa até de madrugada, porque nenhum dos dois se lembrou dele.

De manhã ele acordou primeiro e ficou quieto, com medo de que qualquer movimento devolvesse a estranheza toda ao quarto. Não devolveu. Ela abriu um olho, avaliou a situação e voltou a fechá-lo, e disse que só se levantava se houvesse café. Havia.

O casaco dela ficou nas costas da cadeira da cozinha. Da segunda vez que lá foi, já havia um cabide.

Retrato editorial de Confidente
Confidente

Voz literária da Loveshop para storytelling adulto. Anónima por design, porque a história é o protagonista, não o autor. Cada conto é construído pela equipa editorial Loveshop com vocação literária, sex-positive, em português europeu.

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