A gaveta da mesa de cabeceira tinha uma coisa que nenhum dos dois mencionava há semanas. Ela comprara-as numa tarde de coragem, guardara-as debaixo de umas meias, e desde então a conversa aproximava-se e afastava-se do assunto como quem contorna uma poça.
Naquela noite não havia plano. Estavam os dois na cama, a luz do candeeiro baixa, a televisão desligada há tempo suficiente para o silêncio ter virado outra coisa. Foi ela que se virou primeiro.
- Ainda estão ali, disse.
Ele não perguntou o quê. Percebeu pela forma como ela disse, com a voz um bocado mais em baixo do que o costume.
- E queres?
- Acho que sim.
- Acho que sim não chega, respondeu ele, e sorriu para tirar o peso da frase. Diz-me quando for sim.
Ela abriu a gaveta e pousou as algemas em cima do lençol, entre os dois, como se fossem uma proposta em vez de um objecto. Ficaram ali a olhar para elas. O metal apanhou a luz do candeeiro e devolveu-a mais fria do que era.
Ele pegou numa, virou-a nas mãos, testou o mecanismo uma vez no ar. O som foi curto e seco, e ela sentiu-o no estômago antes de o ouvir com os ouvidos.
- Sabes que basta dizeres pára.
- Sei.
- Repete comigo. Qual é a palavra.
- Pára, disse ela, e riu-se de nervos. Só isso. Pára.
Ele acenou devagar. Depois esperou. Não avançou, não pegou nos pulsos dela, não fez nenhum daqueles gestos que os filmes ensinam. Ficou à espera, e foi essa espera que a decidiu.
Não foi o metal que a convenceu. Foi ele ter perguntado duas vezes.
Ela levantou os braços acima da cabeça sozinha, sem que ninguém lho pedisse, e apoiou os pulsos na madeira fria da cabeceira. O gesto era dela e ambos sabiam disso.
O primeiro pulso demorou. Ele passou o polegar pela pele antes de fechar, como quem avisa, e só depois apertou. O clique encheu o quarto inteiro. Ela fechou os olhos e deixou-se ficar com o eco.
- Aperta?
- Não. Está bom.
O segundo foi mais rápido, e quando ficou fechado ela puxou os braços de leve, só para sentir o limite. Não havia limite nenhum a doer. Havia só a certeza de que não podia usar as mãos, e essa certeza mudou tudo o resto de lugar.
Ele não se apressou. Sentou-se ao lado dela e ficou a olhá-la assim, com os braços em cima e a respiração já diferente, e demorou tanto tempo a fazer alguma coisa que ela abriu os olhos para perceber porquê.
- Estás à espera de quê?
- Estou a ver-te. Deixa-me.
A boca dele chegou-lhe ao ombro primeiro, depois ao pescoço, sempre com uma lentidão que era quase provocação. Ela quis puxá-lo e lembrou-se de que não podia. Foi aí que percebeu para que serviam aquelas duas argolas: não para a prender, mas para lhe tirar das mãos a possibilidade de acelerar.
Sem as mãos, o corpo dela ficou sem forma de negociar. Só lhe restava receber, e receber acabou por ser mais exigente do que qualquer coisa que ela pudesse ter feito. Cada demora dele durava mais. Cada toque chegava mais longe do que devia.
A certa altura ela disse o nome dele em voz alta, uma vez só, e ele parou.
- Isso é pára?
- Isso é não te atrevas a parar.
Ele riu-se contra a pele dela, e o riso foi a última coisa articulada que qualquer um dos dois disse durante um bom bocado.
Depois, ele abriu-as antes de qualquer outra coisa. Primeiro um pulso, depois o outro, e ficou a esfregar-lhe as marcas com o polegar até desaparecerem, sem dizer nada, como se aquilo fizesse parte do mesmo gesto que tinha começado com o clique.
Ela deixou os braços caírem em cima dele e ficaram assim, com as algemas abertas em cima do lençol, agora só um objecto outra vez.
- Guardo-as outra vez na gaveta?
- Guarda. Mas mais à frente.