O corpete não era para ele

Comprou-o para ela. É a primeira coisa que é preciso perceber desta história, porque muda tudo o resto. Não foi presente de aniversário, não foi resposta a pedido nenhum, não foi para compensar seja o que for. Foi uma tarde em que andava a ver coisas no telemóvel na fila do supermercado, deu com um corpete preto de renda com ganchos atrás e ligas ajustáveis, e pensou uma coisa muito simples: aquilo assentava-lhe bem. Comprou. Pagou do cartão dela. Quando a encomenda chegou guardou a caixa no fundo do armário sem dizer nada a ninguém, não por segredo, mas porque ainda não era assunto para dois.

A caixa esteve lá uns dias. Ela abria o armário de manhã para tirar a roupa do trabalho, a caixa estava, ela fechava o armário e ia trabalhar. Não era medo. Era a vontade de escolher o momento em vez de deixar que o momento a escolhesse a ela, que é uma diferença pequena e é toda a diferença.

A noite em que a tirou do armário não tinha nada de especial. Jantaram cedo, ele ficou na sala com a televisão baixa, ela disse que ia tomar banho e foi. Demorou-se. Saiu do duche, secou-se devagar, pôs creme nas pernas com mais atenção do que costuma, e só depois foi buscar a caixa.

Vestiu-o sozinha, no quarto, com a porta encostada. A renda é fria nos primeiros segundos e depois deixa de ser. As barbatanas assentaram-lhe nas costelas com aquela firmeza que não magoa e lembra ao corpo que existe. Prendeu as ligas uma a uma, com as meias já vestidas, a puxá-las até ficarem direitas, e a certa altura reparou que estava a sorrir sozinha sem motivo aparente. O motivo era simples e ela sabia qual era. Gostava daquilo. Gostava do peso, da pressão, da maneira como o tecido lhe segurava a cintura como uma mão paciente que não aperta de mais.

Chegou aos ganchos das costas e parou.

Apanhou os primeiros de cima para baixo, com os braços torcidos para trás, só pelo tato. Os do meio custaram. Os últimos não houve maneira. Ficou ali a insistir com os dedos a escorregarem no fecho, a rir-se baixinho da posição ridícula em que estava, até desistir e aceitar a única coisa que faltava aceitar naquela noite.

- Anda cá.

Ouviu a televisão desligar-se. Ouviu-o levantar-se do sofá. Ouviu os passos dele no corredor e, nesse intervalo curto, deu-lhe tempo de sentir tudo de uma vez: o pudor, a vaidade, a vontade de ser vista e a consciência exata de que tinha sido ela a chamar.

Ele apareceu à porta e parou.

- Fecha isto, pediu ela, sem se virar. Não chego.

Ele não disse nada durante uns instantes. Ela não se virou. Estava de pé ao lado da cama, com as costas direitas e a cabeça um pouco baixa, e a única coisa que lhe chegava dele era a respiração, que tinha mudado.

- Isto é novo.

- É.

- Eu não sabia.

- Não era para saberes ainda.


Ele aproximou-se. Pousou-lhe as duas mãos nos ombros primeiro, o que não era preciso para fechar gancho nenhum, e ela deixou. Depois desceu-as pelas costas até ao sítio onde o corpete ainda estava aberto e começou pelo de baixo, o que ela não conseguia apanhar sozinha.

Demorou. Não por dificuldade. Percebeu algures a meio do fecho que aquilo não era uma tarefa, era a noite inteira a começar, e ajustou-se ao que estava a acontecer. Cada gancho que fechava puxava o corpete um pouco mais contra o corpo dela, e a cada aperto ela enchia o peito de ar e deixava-o sair devagar, e ele ouvia isso e ia mais devagar ainda.

- Aperta mais.

- Assim?

- Mais um bocado. Aí.

Quando fechou o último não tirou as mãos. Ficou com os polegares assentes na base das costas dela, por cima da renda, e ela sentiu-o a olhar. Não é fácil explicar como é que se sente uma pessoa a olhar, mas sente-se. É uma coisa que aquece a pele por dentro antes de haver toque nenhum.

- Compraste isto para mim?

- Comprei para mim.

Virou-se então, pela primeira vez, e olhou-o de frente para ver o que aquela resposta lhe tinha feito. O que viu não foi desilusão. Foi outra coisa, mais funda e mais difícil de aguentar de olhos abertos: ele estava a olhar para ela como quem foi convidado a assistir a uma coisa privada e sabe exatamente a sorte que tem.

Comprou para ela. Deixou-se ver por ele. As duas coisas cabem na mesma noite e nenhuma anula a outra.

Há uma diferença entre ser vista e deixar-se ver. Ela tinha lido isso algures, num daqueles contos eróticos que lhe aparecem à noite quando não consegue dormir, e na altura achou a frase bonita e mais nada. Naquele quarto, de pé, com a renda apertada nas costelas e o olhar dele em cima, a frase deixou de ser bonita e passou a ser verdadeira.

- Posso tocar?

- Podes olhar mais um bocado.

E ele olhou. Ficou parado, de mãos ao lado do corpo, o tempo que ela quis, que foi mais tempo do que ele contava e menos do que ela gostaria de admitir. Ela não fez pose nenhuma. Ficou ali de pé, a respirar contra as barbatanas, a deixar-se olhar, com uma vaidade calma que não precisava de ser escondida porque ele estava a gostar dela ao mesmo tempo.

- Agora.

Ele chegou-se. Pôs a boca no ombro dela, onde a alça acaba e começa a pele, e ficou ali um bocado só a respirar antes de a beijar. As mãos vieram a seguir, uma à cintura e outra à nuca, e ela fechou os olhos e deixou a cabeça cair para trás contra a mão dele. O cheiro do creme que tinha posto nas pernas subiu do chão com o calor dos dois.


O corpete demorou a sair, e foi essa a graça. Ele já conhecia o caminho dos ganchos, sabia por onde começar, e não teve pressa nenhuma em desfazer o que lhe tinha levado tanto tempo a fechar. A certa altura ela disse-lhe ao ouvido que o deixasse ficar mais um bocado, e ele deixou. A luz do corredor ficou acesa a noite toda porque nenhum dos dois se lembrou de a apagar.


De manhã, o corpete estava atravessado no pé da cama, com as ligas soltas a pender e as meias no chão ao lado. Ela acordou primeiro, viu aquilo e ficou deitada a olhar para o teto com uma satisfação que era dela antes de ser dos dois.

Nos contos eróticos que ela lê de madrugada, a parte boa costuma ser o que acontece depois de a roupa sair. Naquela noite a parte boa tinha sido antes: o intervalo entre chamá-lo e ele chegar, e depois o tempo todo em que ele ficou parado a olhar porque ela lhe pediu.

Ele acordou pouco depois e pôs-lhe a mão na anca por baixo do lençol, sem abrir os olhos.

- Da próxima chama-me mais cedo.

- Da próxima aperto-o sozinha.

- Não chegas aos de baixo.

- Eu sei.

Ficaram os dois calados a sorrir para o teto, cada um do seu lado da cama, e o corpete atravessado no pé da cama ficou ali a dizer o resto.

Retrato editorial de Confidente
Confidente

Voz literária da Loveshop para storytelling adulto. Anónima por design, porque a história é o protagonista, não o autor. Cada conto é construído pela equipa editorial Loveshop com vocação literária, sex-positive, em português europeu.

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