O espelho do armário ficou aberto

O espelho do armário ficou aberto por acidente. Ela tinha estado a procurar uma coisa lá dentro à tarde, deixou a porta encostada, e à noite ninguém se lembrou disso até ser tarde de mais para se lembrar.

O armário é daqueles antigos, de três portas, com o espelho todo na do meio. Estava lá quando alugaram a casa e ficou por inércia, e nunca ninguém pensou muito nele para além de o usar para ver se as calças assentavam bem antes de sair.

Também nunca ninguém o tinha deixado aberto de noite. Não por decisão, por acaso: fecha-se sempre, do mesmo modo que se apaga a luz da cozinha, sem pensar.

Estavam na cama, ele por trás dela, num daqueles inícios sem plano em que uma pessoa se encosta à outra e a outra decide não fingir que estava a dormir. A televisão da sala ainda estava ligada e ninguém se ia levantar para a desligar.

Foi ele que reparou primeiro. Parou a meio de uma coisa que estava a fazer com a mão, e ela sentiu a pausa antes de perceber a razão dela.

- Olha.

- O quê?

- À tua frente.

Ela abriu os olhos. O ângulo do armário apanhava a cama inteira, e a luz do candeeiro dava o suficiente para se ver tudo o que havia para ver.


A primeira reação dela foi fechar os olhos outra vez. É um reflexo antigo e ela conhece-o bem: a parte de si que prefere sentir sem assistir, porque assistir implica avaliar, e avaliar traz consigo uma voz que não é convidada para estes momentos e que aparece na mesma.

- Não olho.

- Não tens de olhar.

Ele não insistiu. Continuou o que estava a fazer, sem pressa nenhuma, e passado um bocado ela abriu um olho só, por curiosidade, do jeito de quem espreita um filme de terror por entre os dedos.

O que viu não foi o que esperava. Esperava ver defeitos, porque é o que se treina a ver. Viu duas pessoas. Viu a mão dele no sítio onde ela estava a senti-la, o que é uma coisa curiosa, ver e sentir a mesma coisa ao mesmo tempo com uma décima de segundo de desencontro entre as duas. Viu a própria boca entreaberta e não achou aquilo ridículo, como sempre teve a certeza de que acharia.

Esperava ver defeitos, porque é o que se treina a ver. Viu duas pessoas.

Ela deu por si a pensar em quantas vezes tinha feito aquilo às escuras, de propósito, ao longo dos anos. Não era pudor exatamente. Era mais uma gestão, a mesma que a leva a escolher o lado da fotografia e a apagar a luz antes de despir a camisola. Uma coisa aprendida cedo e nunca reexaminada.

Reexaminou-a naquela noite, sem querer, por causa de uma porta mal fechada.

E viu a cara dele. Foi isso que a apanhou desprevenida. A cara de alguém completamente absorvido, sem representação nenhuma, com uma concentração que ela nunca lhe tinha visto porque nunca esteve naquele ângulo. Ninguém vê a cara de quem está atrás.


- Estás a olhar.

- Estou.

- E então?

- E então cala-te.

Ele riu-se contra o pescoço dela e ela sentiu o riso descer-lhe pelas costas todas.

A partir dali houve duas camadas na noite, e nenhuma delas foi menos verdadeira do que a outra. Havia o que estava a acontecer e havia o que ela estava a ver acontecer, e as duas coisas não se atrapalhavam. Alimentavam-se. Quando ele mudava alguma coisa, ela via a mudança antes de a sentir, e a antecipação de meio segundo era um brinquedo por si só.

Ele percebeu a mudança e mudou também. Abrandou, deu-lhe tempo, e ela percebeu que ele tinha percebido, o que a fez ficar ainda mais presente. Há uma cumplicidade específica nisto de dois corpos que já se conhecem bem descobrirem, ao fim de tantos anos, uma variável nova que não custou dinheiro nenhum nem exigiu conversa prévia.

A certa altura ela levantou o braço para trás e passou-lhe a mão pelo cabelo, e viu-se a fazê-lo. Aquele gesto, que faz há anos sem pensar, tinha uma forma. Nunca lhe tinha ocorrido que os gestos dela tivessem uma forma vista de fora.

Foi ela que puxou o tecido da alça para o lado, e não ele, o que também era novo. Costuma esperar que seja ele a fazê-lo, e nunca soube bem porquê, tirando o facto de ser assim desde sempre.

Naquela noite não esperou. Fez, viu-se a fazer, e a imagem de si própria a decidir uma coisa em vez de a receber ficou-lhe na cabeça muito depois de a noite ter acabado.


Depois, quando já não havia nada a ver porque tinham os dois os olhos fechados de qualquer maneira, ficaram quietos com a televisão da sala ainda a falar sozinha ao fundo.

- Fechamos o armário?

- Deixa estar.

Ele riu-se outra vez. Ela ficou a olhar para o reflexo, agora só duas pessoas deitadas, sem nada a acontecer, e achou aquilo tão bom de ver como o resto.

- Sempre soubeste que estava aberto?

- Vi ao deitar. Não disse nada.

- Porquê?

- Porque se dissesse, tu levantavas-te e fechavas.

Ela pensou naquilo e concluiu que ele tinha razão, o que a irritou ligeiramente e a agradou muito mais. Ficaram calados outra vez. A televisão da sala passou de um programa para outro e nenhum dos dois se mexeu.

Havia uma coisa que ela queria dizer e que não sabia formular sem soar solene, portanto não disse. Era mais ou menos isto: que tinha passado anos a evitar aquele ângulo por causa de uma ideia que fazia de si própria, e que a ideia estava errada, e que descobrir isso aos poucos e por acaso era melhor do que se alguém lho tivesse dito.

Adormeceu virada para o espelho. De manhã, quando ele se levantou para a cozinha, fechou a porta do armário por hábito e depois voltou atrás e deixou-a encostada, exatamente como estava.

Retrato editorial de Confidente
Confidente

Voz literária da Loveshop para storytelling adulto. Anónima por design, porque a história é o protagonista, não o autor. Cada conto é construído pela equipa editorial Loveshop com vocação literária, sex-positive, em português europeu.

Produtos Sugeridos